quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Rainer Maria Rilke
"Vivemos tão mal porque chegamos sempre inacabados ao presente, incapazes e dispersos em tudo"
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"O tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade"
Pensamentos desgostosos sobre o tempo rondam minhas atenções nesta noite. Vivo uma ardente inquietação por não ser capaz de me adequar à pulsação frenética das horas, que passam como uma ventania imprudente e precipitada...
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"O tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade"
- Rainer Maria Rilke
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| © Natacha Cortêz |
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Burburinhos do pensamento
Receber a notícia de que alguém morreu me sensibiliza muito para a vida. Eu, que tanto amo meus dias e sonhos reais, me dou conta de que sou efêmera. Como um dente-de-leão que, pego desprevenido pelo mais leve sopro, desconstitui-se por inteiro. Mas tão lindos são os dentes-de-leão...
E só de imaginar que a morte pode significar um voo intenso em direção à liberdade, o coração aquieta. E, iminentemente, eu prometo: minha alforria vai acontecer em vida.
E só de imaginar que a morte pode significar um voo intenso em direção à liberdade, o coração aquieta. E, iminentemente, eu prometo: minha alforria vai acontecer em vida.
sábado, 19 de outubro de 2013
Carona no vento para o horizonte
Encostar no parapeito da janela da varanda é um êxtase. Não porque as águas do mar estão alegres e dançantes quebrando umas sobre as outras, mas porque o vento que as move parece bater em minha janela pedindo para entrar. Indubitavelmente, abro. E ele me abraça: salgado por natureza, doce por elucidação poética.
A brisa do mar cheira à liberdade. E eu me deixo levar. Sinto o corpo desconstituindo. E como pequenas partículas livres e sem rumo diante de um sopro forte, vou cambalhotando brisa afora.
É que eu sempre tive vontade de tocar o horizonte. E, disfarçada de ser humano, como ando ficando com certa frequência, estava impossível. Descobri que para alcançar horizontes era preciso estar despido: de roupas, preceitos, pré-conceitos, sangue nas veias. Por que somente os humanos possuem sangue nas veias. E no horizonte é preciso deixar tudo isso para trás.
No lugar do sangue, sonho. No lugar de ser humano, apenas o verbo ser.
A brisa do mar cheira à liberdade. E eu me deixo levar. Sinto o corpo desconstituindo. E como pequenas partículas livres e sem rumo diante de um sopro forte, vou cambalhotando brisa afora.
É que eu sempre tive vontade de tocar o horizonte. E, disfarçada de ser humano, como ando ficando com certa frequência, estava impossível. Descobri que para alcançar horizontes era preciso estar despido: de roupas, preceitos, pré-conceitos, sangue nas veias. Por que somente os humanos possuem sangue nas veias. E no horizonte é preciso deixar tudo isso para trás.
No lugar do sangue, sonho. No lugar de ser humano, apenas o verbo ser.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Arrebatamentos
A pequenez do pássaro
diante do mar
E nossa pequenez
diante dos pássaros
Tão grandes somos
em alturas e larguras
E quão incapazes
de voar
O pássaro entende
dos ventos que movem o mar
E nós
O que entendemos
Da liberdade dos pássaros?
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Despertencimento
Os cômodos tomados por ruídos da TV, interruptores sensíveis ao movimento, lâmpadas de LED e cafeteira expressa. Meu corpo parecia tão morto para uma casa tão viva. Ou era a própria quase-autonomia daquilo tudo que me matava? Ter o movimento do dedo indicador era o que bastava para ebulir as engrenagens daquele mundo. Na verdade, os dedos eram as próprias engrenagens.
O coração, já raquítico, embargava. A carcaça, contudo, permanecia firme e fixa ao chão, à exemplo dos manequins dos shoppings centers. Mas, dentro de mim, eu minguava. Moída como grão de café, dissipada por mim mesma feito fumaça do líquido quente e infectado de tecnologia.
Aos poucos, eu despertencia. A essência escorria por entranhas e mucosas e ali ficava, aos pés do manequim, suplicando para voltar a constituir-se corpo.
Ouvi batidas na porta. Permaneci imóvel. Entraram. Sabia que entrariam. Era de praxe o não interesse em buscar saber sobre as vontades de quem se encontra do outro lado do território. "Porta", para eles, significava apenas um pedaço morto de madeira. Uma intransigência no meio do caminho.
Tornava-se inútil dizer que por trás da porta, às vezes, está o doce caminho para a solidão. E que o barulho do silêncio é música para os que gostam de ficar do outro lado daquele pedaço de matéria insossa.
A carcaça foi cumprimentada. Os lábios esticados como que por um repuxo violento. Os dentes aparentes, mas amarelos. Através uma felicidade petrificada, eu até parecia sorrir.
Fui perguntada sobre os trabalhos, sobre os estudos, sobre dinheiro. Eles eram meus pais. Mamãe deu-me um beijo. Os lábios quentes não perceberam a frieza de minhas bochechas. O abraço de meu pai não foi capaz de notar o barulho oco vindo de dentro de mim. Às vezes desconfiava, mesmo, da capacidade dele de discernir entre uma veia que pulsa e um fio de cafeteira elétrica.
Eles deram-se as mãos e no primeiro passo adiante estatelaram-se no chão. A essência viscosa debaixo de seus sapatos denunciava o motivo do desequilíbrio. Parte minha, tão líquida e tão livre, agora banhava a sola de dois pares de calçados. Carregando o peso de um parelho de corpos nas costas, lutando para não fadigar. Tentando, a cada oportunidade, desgrudar-se das solas. Unir-se à essência-mãe, como pedaço remanescente, para desvelar-se corpo. Fora dali. Para, enfim, pertencer-me.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Não existe hora certa pra nada. Esperar o dia certo para escrever, a pessoa certa para se apaixonar, aquele emprego que pode salvar todas as suas frustrações econômicas. A gente idealiza a vida de um jeito irresistível. Mas depois descobrimos que o irresistível mesmo é opor-se a ela. E ao tomar essa coragem, embarcamos em expedição sem volta. Aceitamos viver em alto mar, podendo respirar brisa fresca ou sermos engolidos pela maré.
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